Relatos de um pai de primeira viagem!

Ser pai é padecer no paraíso: Relatos de um pai de primeira viagem!

Hoje, no blog “sobre maternidade”, falaremos “sobre paternidade”. A pedido da Aninha, quem irá escrever o post de hoje sou eu, o papai do Francisco! O tema? Ser pai é padecer no paraíso: Relatos de um pai de primeira viagem!

Já que faz um ano que ele nasceu [o Chiquinho], achei interessante fazer um breve relato das mudanças sentidas na minha própria pele.
Seguindo o clichê, ser pai (também) é padecer no paraíso. Mas engana-se quem pensa que a nova etapa da paternidade inaugura-se com o nascimento (e toda aquela sensação de pânico por nunca ter trocado uma fralda antes). Os “efeitos” da paternidade começam a ser sentidos muito antes. A meu ver, começam no dia em que a sua mulher lhe entrega o exame de gravidez com aquela cara de “vem um beijo ou não?” ou ainda quando ela acorda, faz o tal do teste da fita, e sai gritando do banheiro, enquanto você sonhava, “ESTOU GRÁVIDA! ESTOU GRÁVIDA!”.

Pra quem não espera a notícia, a novidade pode cair como um banho de água fria em um dia de nevasca. Para outros, como é o meu caso, como uma dádiva divina. Mas e aí, passado o tal pavor ou a divina euforia, vem a pergunta que recai sobre todos os pais. Vem a questão das questões, a questão que nem Leonardo da Vinci, Platão, Einstein ou o Sheldon poderiam responder. A pergunta mais intrigante do Universo: “E agora, José”?

E agora segura na mão de Deus e vai, filho, err…, digo, pai! É preciso ter culhões pra ser pai. Não estou dizendo que a atividade seja trabalhosa a ponto de ser um desprazer. Não é isso. Quero dizer que ser pai é ser “homem” (e não no sentido machista ou preconceituoso do termo). Não. Quero dizer que a paternidade separa “homens” de “garotos”. Em outras palavras, a responsabilidade que recai sobre o “pai fresco” faz com que ele tenha que amadurecer, a marteladas, de um dia pro outro. A paternidade dicotomiza (separa) os “velhos jovens” e os “jovens velhos” dos garotos.

E eu quero explicar porque chego a esta conclusão. Mesmo para os mais indiferentes, a paternidade causa impacto. Não se trata de notícia à la opa, veja, uma pedra! ou just another day in the ordinary life (mais um dia no dia a dia habitual). Não. O “+” no exame de gravidez ou a estridência nos seus tímpanos com a gritaria [lembram do “ESTOU GRÁVIDA!”?] são um soco no estômago dos menos desavisados [pior ainda dos despreparados]. E é esse soco, da mais pura e crua realidade, e da mais profunda e inexplicável essência da vida, que dicotomizará, que separará, os jovens, indiferentes às responsabilidades, e os (velhos) [no sentido etário e no sentido da habitualidade] “aventureiros” dos “homens”.

A paternidade traz consigo um fardo, sim. Para os amantes da máxima liberdade ela traz um fardo maior ainda. Cuidar de um novo ser — vejam esse novo ser como um pedaço seu (pelo menos 50% de sua constituição) — exige comprometimento. É preciso saber que esta criança, seu(sua) filho(a), pedaço seu, demanda atenção, demanda tempo, demanda respeito e, mais do que tudo, ela(e) depende do seu amor.

Pelo menos por uns bons anos, enquanto ela não possuir a capacidade de autodeterminação e autoconhecimento, e enquanto ela não dispensar cautela para as funções básicas da vida (comer, beber, caminhar e fazer suas necessidades), a criança precisará de observação dos pais. E neste ponto, a demanda por atenção das crianças durante os primeiros anos irá cercear (reduzir) boa parte da liberdade que os pais tinham.

O choro noturno, matinal e vespertino irão lhe tirar o sono. A necessidade por cuidados básicos lhe impedirão de fazer todas as mesmas coisas que se fazia antes. O egocentrismo e o egoísmo (do “pai fresco”) serão, ao poucos, fragmentados a pauladas. Para aqueles que possuem uma estrutura psíquica adaptável, em uma espécie de amálgama moldável, o sofrimento poderá ser menos traumático. Porém, para os engomadinhos de estrutura egóica centralizadora, talvez seja insuportável. Para o egóico — e não o egocentrista —, a simples ideia de descentralização da energia de autopreservação e prazer é inadmissível. É neste ponto que a criança estará à mercê de um pai autoritário, indiferente e, possivelmente, diariamente revoltado.

O cerceamento (redução) da liberdade trazido pela paternidade é, portanto, a meu ver, o maior medo de quem, na idade da maturidade humana, pensa em ter um filho. Será que poderei fazer todas as coisas que faço hoje? Será que terei condições de sustentar-me (inclusive meu ego)? O que acontecerá com a minha liberdade? E as possibilidades de experimentar novas experiências, situações, ou mesmo, pessoas? Continuarei fazendo tudo o que tenho vontade de fazer? Terei tempo pra tanto?

Não há resposta pré-formatada para todas as questões acima. A paternidade é uma experiência pragmática, baseada na experiência. Nâo há método científico que a possa comprovar ou responder. A experiência não é reproduzível em semelhantes condições de local e tempo. Cada ser e cada interrelação (mantida com terceiros), a exemplo da relação pai e filho, é única. Porém, uma delas eu posso responder. A paternidade mitiga (restringe), sim, a sua liberdade. É preciso levantar mais cedo, aprender a trocar fraldas, ser indiferente com saliva, secreções, pedaços de comida e, algumas vezes, excrementos nas suas mãos e roupas. Quando você estiver no auge do prazer e deleite do seu hobby ou lazer, um sonoro “BUÁÁÁ!” lhe desviará a atenção e você terá que “pausar” o seu eu para atender outro pedaço de si mesmo: seu filho. Você está preparado para isso?

Como disse antes, ser pai exige responsabilidade e autoconhecimento. Você terá que cuidar do seu filho, abrindo mão do tempo que dedicaria exclusivamente a si mesmo. É preciso conhecer-se para saber se conseguirá lidar com isso ou mesmo se está disposto a enfrentar esta situação. Se você responder negativamente, sugiro que (re)pense sobre os encargos da paternidade — se tiver a oportunidade, é claro, porque a surpresa é, não raras vezes, característica da gravidez. Você será o alicerce da vida de outra pessoa. Você doutrinará, para o bem ou para o mal, um semelhante. Você ajudará a moldar o mundo com as atitudes futuras do seu filho, talvez como um agente, como um líder.

 

 Relatos de um pai de primeira viagem!

Mas, diante de tanto comprometimento e esforço sintetizados em algumas poucas linhas, qual a relação do padecimento da paternidade com o paraíso? Onde o Éden se encaixa em toda esta tarefa sisífica? Ser pai é padecer no paraíso?
Novamente, a paternidade é pragmática. A experiência paterna relatada em palavras, com significantes e significados, seria incapaz de ser representada nos limites da linguagem. É preciso experimentar ser pai [e percebam, não estou sugerindo o aumento da taxa de natalidade].

Da minha breve experiência como pai, desde o dia em que a Ana saiu gritando do banheiro [ESTOU GRÁVIDA! ESTOU GRÁVIDA!], puxando os meus pés na cama, posso lhes dizer, mesmo que por meio de palavras, que a paternidade desvelou-me o sentido da vida. Creio que ao invés de lhes dizer, na expressividade da escrita, o que sinto, seja melhor lhes relatar episódios para que as emoções floresçam individualmente em vocês leitores.

Ser pai é levantar, bem cedo, e ver que seu filho está de pé no berço, há alguns minutos já, esperando você acordar. Quando ele vê que você o viu, ele abrirá um sorriso enorme e terá pequenos chiliques (batendo as mãos, pulando ou dando uma bruta gargalhada) de euforia.

Ser pai é comprovar o jargão “nada é impossível”. Nada é, quando se é pai. Melhor dizendo, vai pai, te vira. Se for preciso, move-se o mundo para proteger ou dar o melhor para os nossos filhos.

Ser pai é procurar hábitos, sinais e características, físicas e comportamentais, semelhantes aos seus para, enchendo o peito e erguendo a cabeça, dizer: “Bah, igual a mim”.

Ser pai é, mesmo sabendo do alerta dos profissionais da Psicologia, Pediatria e Psiquiatria, projetar nos filhos planos e sonhos que não foram realizados. De manhã, ele será surfista, de tarde, executivo e de noite, skydiver.

Ser pai é saber que o seu maior aliado é a sua esposa. É saber que dividir tarefas não é o mesmo que ser indiferente às agruras da madrugada. É saber que na hora em que você estiver trabalhando, você poderá contar com ela para lhe ajudar na construção de uma excelente educação para o seu filho.

Ser pai é sentir vontade de sair passear com o seu filho e orgulhar-se. É ver no seu filho um sem número de qualidades que você não tem. É saber que, se depender de você, ele terá um futuro promissor.

Ser pai é desejar que o seu filho jogue videogame com você e consiga ser melhor que você em algum MMoRPG da vida.

Ser pai é receber um sorriso e um abraço forte quando você abre a porta no final da tarde depois de ter perdido uma liminar. Ser pai é sentar no tapete acolchoado do seu filho depois de 10 horas de trabalho e brincar por mais algumas com ele.

Ser pai é saber equilibrar horas de trabalho com horas de vida em família.

Ser pai é viajar com seu filho para um lugar legal e tirar mil fotos dele com a mãe.

É saber que você reproduzirá a experiência a qual você um dia você foi submetido (como filho). É identificar e filtrar o que de bom irá reproduzir e oferecer também. Ser pai é experimentar!
 

Parabéns a todos os pais, reais ou pretensos, por todo o seu esforço! Somos o alicerce dessa gurizada! Sei da responsabilidade com o futuro deles. Mas também estou ciente da recompensa diária que nos proporcionam e do amor que sentimos por eles.
Sejamos felizes em nossa tarefa diária paterna. Cada dia é um novo dia de experiência e surpresas!

 

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Um grande abraço!

Maci!

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